OS SINOS DO SANTUÁRIO
Os sinos, Chateaubriand dedica-lhes todo um capítulo das suas Belezas do Cristianismo, embalde procurando, com as mais mimosas cores, reproduzir aqueles tons de poesia e saudade, de emoções e de encantos que se derramam por sobre o painel de nossas tardes, ao repicar festivo dos campanários.
Os paroquianos do Bom Retiro também poderão experimentar em breve a sensação de toda essa poesia campestre. Suas manhãs serão alegradas com as vibrações jubilosas dos bronzes: logo ao despertar, lembrar-lhes-ão esses fiéis amigos, o cumprimento do preceito dominical; ouvir-lhes-ão, ao cair das tardes, o tanger saudoso, convidando-os à oração, elevando-lhes os corações acima, muito acima, de todas as misérias e preocupações da vida.
Graças ao zelo do virtuoso vigário e mercê da caridade de almas generosas, três grandes sinos, foram inaugurados, dentro em pouco, no campanário provisório da futura Matriz.
Fundidos em São Paulo, pelo senhor Angelo de Angelis, os três sinos são obras artisticamente acabadas, nada absolutamente deixando a desejar dos que se fabricam na Europa. Pesam conjuntamente 700 quilos, para mais. São definitivos, exigindo mais dois acima destes, quando estiverem prontas as torres.
Foram feitos, por subscrição popular, em agradecimento a Nossa Senhora Auxiliadora, ao Venerado Dom Bosco e Domingos Sávio, pela proteção outorgada à nossa paróquia e à cidade de São Paulo, durante os infaustos dias da Revolução de Julho.
Os sinos tomaram respectivamente os nomes de: Sino da Legalidade, Sino de Nossa Senhora Auxiliadora, Sino de Dom Bosco e Domingos Sávio.
O primeiro apresenta em uma das faces o Arcanjo São Miguel, artisticamente esculpido, lendo-se abaixo os dizeres: Archanjo S. Miguel, que em nome de Deus suffocastes a primeira revolta dos anjos rebeldes, afastae para todo o sempre de nossa Patria querida, qualquer movimento sedicioso.
O sino de Nossa Senhora Auxiliadora ostenta, belissimamente gravado o retrato da maqueta de seu Santuário em construção, com a Virgem Auxiliadora, aureolada em luzes, lendo-se a inscrição: Lembrando os tristes dias de uma revolta, os Parochianos reconhecidos a Nossa Senhora Auxiliadora.
No último sino estão gravados os retratos do Venerável Dom Bosco e do Servo de Deus, Domingos Sávio, e os dizeres: Ao immortal Dom Bosco e ao Servo de Deus, Domingos Savio, os salesianos e alumnos.
Breve, pois, teremos a dita de ver inaugurados tão artísticos sinos: breve poderemos ouvir-lhes as vozes, e, cada pancada há de lembrar aos piedosos paroquianos do Bom Retiro, todo o carinho, toda a gratidão que devem, dívida insolúvel, à excelsa Virgem de Dom Bosco, que se lhes mostrou verdadeira mãe e auxiliadora, nos dias da tribulação, nos dias dos sofrimentos, nos dias tristes que a Revolta, gravou em caracteres de sangue, nos anais de São Paulo. E então estamos certos, seus corações hão de pulsar, mais generosos; sabendo que amor com amor se paga hão de porfiar em tributar mostras de amor à Virgem, despertando alguns do letargo, da indiferença; crescendo outros em generosidade e ardor; cooperando todos, à medida de suas posses, para que o belíssimo Santuário do Bom Retiro não fique, eternamente, em construção.
O Revmo. Vigário agradece, a todas as senhoras zeladoras e zeladores, o empenho que mostraram em angariar as esmolas necessárias para a aquisição dos sinos votivos.
A Virgem Auxiliadora os há de colmar de seus melhores carismas, derramando a felicidade em seus lares, prosperando-lhes os negócios, prodigalizando-lhes o cem dobro de quanto a prol do seu culto fazem.
Oxalá os belos sinos da Matriz, em seu reboar primeiro pelos ares azuis do Bom Retiro, infundam novo ardor nas almas, novo entusiasmo nos corações, e marquem o início de uma nova era de prosperidade, de progresso, de crescimento sem peias para o culto da excelsa Auxiliadora dos Cristãos.
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Aos 19 dias do mez de abril do anno do nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de 1925, ás 10 horas da manhã, no local das obras do Santuario de Maria Auxiliadora em construcção, foi celebrada a Santa Missa pelo Revmo. Vigario, Padre Antonio Dalla Via, num altar campal erecto no lugar do futuro presbyterio, estando presentes o Revmo. Padre Pedro Rota, inspector Salesiano, e outros sacerdotes, a Commissão consultiva pro-Matriz, varios convidados e grande massa de fieis, sendo paranympho o Coronel Pedro Dias de Campos, Comte. Geral da Força Publica do Estado. Após a Missa, assomou á tribuna o Revmo. Conego João Baptista Martins Ladeira, Chanceller do Arcebispado, que, com sua peculiar eloquencia, discorreu brilhantemente sobre o objecto da solemnidade. Em seguida o Revmo. Padre Inspector e outros sacerdotes, o Coronel Pedro Dias de Campos e a Commissão, subiram ao campanario provisorio e ahi procedeu o Revmo. Padre Rota á bençam liturgica dos sinos votivos Maria Auxiliadora e Veneravel D. Bosco, dados pelos parochianos, por meio de subscripção popular, em agradecimentos pelas mercês recebidas durante a revolta de Julho de 1924. Num dos sinos está gravada a maquette do Santuario em construcção e a effigie da veneranda e milagrosa imagem de Maria Auxiliadora com os seguintes dizeres: Lembrando os tristes dias da revolução, os Parochianos agradecidos a Nossa Senhora Auxiliadora.
No outro sino estão gravadas as imagens do Veneravel D. Bosco e Domingos Savio, com estes dizeres: Ao immortal Dom Bosco e ao seu santo discipulo Domingos Savio, os Salesianos e Alumnos.
Depois da bençam liturgica, no meio da maior alegria e satisfação fizeram-se ouvir os novos sinos e uma salva de palmas applaudiu a inauguração dos mesmos, tocando bellissima marcha e banda de musica da Força publica, cedida por ordem do Coronel Pedro Dias de Campos, o qual foi muito cumprimentado pelo concurso que vem prestando ás obras Salesianas nesta parochia. E, para constar, eu, Socrates F. de Oliveira, secretario da Commissão, lavrei esta acta ad perpetuam rei memoriam.
(cópia do texto original)
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O sino da Paz - A grande festa civil e religiosa
no Bom Retiro - |
Nada faltou para que a tocante cerimônia assumisse as proporções de um verdadeiro acontecimento de alto valor cívico e religioso, deixando em todos os espíritos impagáveis lembranças.
Enumerar todos os presentes às grandiosas solenidades fora tarefa impossível. Bem poucas vezes, temos assistido a reuniões de tamanha suntuosidade. Senhoras e senhoritas do nosso escol social deram alto relevo à solenidade.
Na tribuna oficial, artisticamente ornamentada, viam-se os senhores Agenor Barbosa, representando o Sr. Presidente do Estado, que deixou de comparecer por se achar na Capital da República; Dr. Bento Bueno, secretario da Justiça e da Segurança Pública; General Eduardo Sócrates, comandante da 2ª Região Militar; Coronel Pedro Dias de Campos, comandante geral da Força Pública; comandantes dos diversos Batalhões; professor Pedro Voss, diretor geral da Instrução Pública; Dr. Antonio Covello Leader da Câmara dos Deputados. Em outros lugares tomaram assento oficiais da Força, Senhoras e grande massa de povo.
Às 9 horas foi celebrada, no pátio do Instituto Dom Bosco, festivamente embandeirado, soleníssima Missa por monsenhor Pereira Barros, Vigário geral da Arquidiocese, acolitado pelo capitão Octavio Azevedo e tenente Benedicto Godolfredo Taques Alvim, ambos da Força Pública.
Ao Evangelho, assomou à tribuna sagrada o Padre Genésio Nogueira Lopes, que produziu eloqüente oração, vibrante de patriotismo, cheia das mais alevantadas concepções. Para aqueles que não tiveram a ventura de ouvir a lapidar peça oratória, damo-la em resumo pela carência de espaço:
O orador começou dizendo o quanto lhe impressionava o espetáculo daquela disciplinada turma de soldados que aí viera, numa sincera manifestação de fé, agradecer a Deus o grande benefício da paz. Não esconde suas profundas simpatias pelo soldado e mormente pelo soldado brasileiro, e vai mesmo discorrer sobre as razões dessa simpatia. Acha muitos pontos de contato entre o padre e o soldado, pelo espírito de disciplina consciente que os anima, pela submissão às ordens e pela freqüente aproximação dessas almas nos instantes mais precários da vida de um povo. Na paz, é o socorro das famílias, o anteparo contra as paixões, a garantia contra as rebeliões. Na guerra, é um baluarte animado de resistência, manifestada muitas vezes apesar do desfalecimento das forças píssicas. O soldado deve ter um ideal, e esforçar-se por desempenhar bem esse ideal. Servir a Pátria, com desinteresse, sem ambições de lucro torpe nem lugares altos. O soldado, sendo bom soldado, já lhe basta isto para a realização do seu ideal, bem como a maior ambição para um padre é a ambição de ser um bom padre. O soldado, para ser um soldado ideal, há de ter fé. Sem religião, não é possível o perfeito cumprimento dos mais comezinhos deveres cívicos, quanto mais o da missão militar, que exige uma força moral pouco comum.
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Finalizou exortando-os ao amor sagrado da Pátria, que dá reflexos de nobreza à farda brasileira. Faz votos porque o soldado, inspirado na Pátria e na Fé, morra abraçado aos dois objetos mais sagrados, fonte de coragem, constância e bravura na vida de soldado a bandeira brasileira e a Cruz da Redenção. Palmas prolongadas se fizeram ouvir. O orador foi calorosamente felicitado e abraçado. Finda a Missa, realizou-se a cerimônia do benzimento do sino da Paz, ato que igualmente se revestiu de grande pompa. Nessa ocasião, o consagrado tribuno Dr. Antonio Covello arrebatou o numeroso auditório com um brilhante discurso, alusivo ao ato. A sua notável peça oratória, das mais vibrantes que tem produzido, causou funda impressão em todos os que a ouviram, já pela beleza de seu conceito, já pelo seu alto senso patriótico. Como sempre aconteceu quando fala o grande orador, longas e vibrantes palmas o interromperam freqüentes vezes, coroando, por fim, a esplendida peroração com que terminou o seu formosíssimo discurso.
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