![]() Bandeira do Vaticano |
Passo-a-passo: a escolha de um papa O ritual da eleição de um papa é fascinante. Tem a solenidade e a majestade daqueles acontecimentos destinados a permanecer na memória das pessoas. O processo, tal como é hoje, foi detalhado pelo papa Gregório X, entre 1621 e 1622, e não sofreu grandes mudanças desde então. |
Teoricamente, qualquer adulto do sexo masculino é papábile, ou seja, pode ser eleito papa. Na prática, no entanto, já há muitos séculos que só cardeais têm sido escolhidos.
Como os herdeiros de São Pedro são vitalícios, nem todos nós podemos ter o privilégio de assistir a uma dessas cerimônias. Por isso, acompanhe nesse passo-a-passo esse ritual solene.
A morte do papa
Assim que um papa morre, a primeira providência é chamar o
Camerlengo, que é o chefe do Sacro Colégio de Cardeais.
De pé, ao lado do corpo, ele toca 3 vezes na testa do papa com um martelinho de
prata e o chama 3 vezes pelo nome de batismo (e não pelo nome que adotou ao ser
eleito). Se não há resposta, ele anuncia o falecimento e quebra o anel do
Pescador (que o papa usa para lembrar o momento em que Jesus diz a Pedro que ele
seria um pescador de almas e no qual está gravado o nome do papa). O Camerlengo
também inutiliza o timbre papal (que é a marca da autenticidade dos documentos
assinados pelo Sumo Pontífice). E dá início aos preparativos para o enterro e
para os nove dias de luto. Ele também vai organizar a eleição do próximo
papa.
O conclave
Depois de 15 ou 20 dias, o Sacro Colégio de Cardeais se reúne
para a eleição. Essa reunião é chamada conclave. Literalmente, conclave quer
dizer "local que pode ser trancado de forma segura". Hoje, além de
designar a grande sala reservada para a reunião dos cardeais encarregados da
escolha de um novo papa, também significa o próprio encontro. Todos os
cardeais devem participar do conclave, mesmo que estejam sob censura, ou mesmo
que tenham sido excomungados. Eles chegam dos quatro cantos do planeta. Durante
o tempo que durar a reunião (nove dias ou até que a escolha seja feita) ficarão
absolutamente isolados do mundo, recolhidos em aposentos especiais, anexos à
famosa Capela Sistina, onde o conclave propriamente dito acontece.
Para abrir o conclave, uma missa é celebrada na Catedral de São Pedro. Cada cardeal faz o voto de manter a eleição em segredo e todos rezam para que o Espírito Santo inspire suas escolhas, estando presente nas deliberações. Depois, se recolhem. As salas são examinadas para detectar possíveis microfones, as entradas são seladas, as cortinas, fechadas.
O ritual na Capela Sistina
Na Capela Sistina, transformada em sala do conclave, as cadeiras
altas têm um baldaquim de cor púrpura, uma espécie de cobertura. A escolha da
cor não é um acaso: púrpura é, tradicionalmente, a cor do luto e também da
realeza. O trono do papa é removido. Seis velas são acesas no altar, onde está
o cálice sagrado. É nele que serão colocados os votos. Os cardeais adentram a
Capela Sistina sem chapéu. As cabeças descobertas e os baldaquinos simbolizam
que a autoridade suprema nasce apenas dessa reunião e que não pertence a
nenhum deles, individualmente.
Quando não se reúnem na Capela Sistina, os cardeais ficam em suas celas. Cada um toma as refeições reservadamente e cada cela é fechada por um tecido, na cor que simboliza a ligação do respectivo cardeal com o papa morto: púrpura (se o cardeal foi escolhido por aquele papa) ou verde (caso não tenha sido escolhido por aquele papa). Quando não desejam ser perturbados, eles podem fechar a porta, cuja moldura tem o formato de uma cruz em diagonal, conhecida como a Cruz de São André. Os cardeais devem ficar sempre juntos e todos os aposentos são próximos o bastante para que eles sejam permanentemente vistos uns pelos outros.
A votação
O voto é secreto (escrutínio). No passado, um papa era eleito
com dois terços dos votos mais um. O Papa João Paulo II mudou essa regra. Hoje
a escolha é feita por maioria absoluta, quer dizer: metade dos votos mais um.
Duas sessões de votação são feitas a cada dia, uma pela manhã e outra à
tarde, por nove dias, ou pelo tempo que for necessário. Cada cardeal deposita
seu voto no cálice, sobre o altar. Depois de cada sessão, os papéis da votação
são queimados. Se a votação não foi conclusiva, uma substância química
é adicionada aos papéis para que eles produzam uma fumaça negra ao queimar. A
fumaça que sai pela chaminé, no telhado do Palácio do Vaticano, é um sinal
para a multidão que espera na Praça de São Marcos. Enquanto for negra,
significa que a Igreja está sem sua principal figura.
O resultado
Mas, afinal, os cardeais chegam a uma conclusão. O deão, ou o
mais velho dos cardeais, pergunta ao novo papa se ele aceita a eleição e por
qual nome quer se tornar conhecido. Esse costume vem desde o século 10 e é uma
lembrança de que Jesus mudou o nome de São Pedro ao escolhê-lo para chefe de
sua igreja. Nesse momento, todos os baldaquinos cor de púrpura dos tronos são
levantados, menos o do escolhido.Os papéis da votação são queimados e a fumaça
branca avisa ao povo na praça que um novo papa foi eleito.
Habemus papam!
· O escolhido é, então, levado para um quarto ao lado e
veste as roupas de papa. Os cardeais prestam a ele sua primeira homenagem. O deão
vai até o balcão e proclama: "Habemus papam!" (Temos um papa). E o
novo pontífice aparece no balcão para abençoar a multidão.
A primeira ousadia de João Paulo II
João Paulo II, quando eleito, foi além da benção. Surpreendeu a
todos, falando de improviso com o povo reunido na praça. Nenhum outro papa,
antes dele, tinha falado sobre a eleição. E ousou mais ainda, ao confessar que
tinha medo e que precisava da ajuda de todos para realizar sua missão. Foram
essas suas palavras:
"Louvado seja Jesus Cristo. Caríssimos irmãos e irmãs, todos estamos sofrendo de dor pela morte de nosso amadíssimo papa João Paulo I. E eis que os eminentíssimos cardeais escolheram um novo bispo de Roma. Chamaram-no de um país longínquo, longínquo...mas sempre assim tão perto pela comunhão na fé e na tradição cristã. Eu tive medo de receber essa incumbência, mas o fiz no espírito de obediência a nosso Senhor Jesus Cristo e na total confiança em sua mãe, Maria Santíssima.
Não sei se posso me explicar na língua de vocês...na nossa língua italiana. Se eu errar, corrijam-me. Desse modo apresento-me a todos vocês para expressar nossa fé comum, a nossa esperança na Mãe de Cristo e da igreja e, também para recomeçar neste caminhar da história e da Igreja, com a ajuda de Deus e com a ajuda dos homens."